13 de abr de 2015

Vultos da República (Vários autores) @ciadasletras

Vultos da República: Os melhores perfis Políticos da Revista Piauí (2010)
Org: Humberto Wenerck
Editora: Companhia das Letras

Zé Dirceu não perde a paciência quando é insultado em locais públicos. Fernando Henrique Cardoso gosta de falar sobre si mesmo.  José Serra foi um galanteador na juventude.  Esses são alguns dos segredos que descobrimos dessas e de outras personalidades ao lermos “Vultos da República: os melhores perfis políticos da Revista Piauí”.


Publicado em 2010, momentos antes das eleições daquele ano, a coletânea reuniu nove textos publicados na Piauí sobre oito personagens relacionados com a política. São eles: Fernando Henrique Cardoso,  José Dirceu, Francenildo dos Santos Costa, Dilma Rousseff, Sérgio Rosa, José Serra, Márcio Thomas Bastos e Marina Silva.

Em aproximadamente 300 páginas, somos apresentados a momentos e a detalhes que não são publicados cotidianamente nos jornais (essa é uma das características do perfil, um dos gêneros jornalísticos mais interessantes, no meu ponto de vista).  Mais do que isso, os textos são escritos com maestria: a descrição dos personagens, do ambiente e, quando necessário, com a reprodução de diálogos enriquecem a leitura.

Os repórteres que redigiram esses perfis são, sem dúvida, escritores de mão cheia de não-ficção. Talham tão bem o texto, magistralmente, que muitos livros de ficção ficam atrás da realidade.
“Vultos República” é um ótimo livro para conhecemos o lado humano das figuras do cenário nacional. No livro, por exemplo, ficamos sabendo que FHC não é tão fã dos Estados Unidos da América. Logo no primeiro texto, João Moreira Salles escreve:

“A América, para ele, é como a madrinha excêntrica, que provê - convive-se com ela mais por necessidade que por gosto.”
No delicioso texto de Daniela Pinheiro, recheado de detalhes e observações, o ex-ministro José Dirceu é descrito como vaidoso: sempre que passa em frente a um espelho, olha para si mesmo e confere o penteado.  É, também,  um homem de bom gosto: janta nos melhores restaurante, bebe dos melhores vinhos e – mesmo estando fora do governo à época – opina sobre os fatos políticos. Em 2008, falou sobre as possíveis candidaturas do PSDB para 2010:

“Posso discordar do que o Serra pensa e faz, mas reconheço que é um ótimo administrador. Ele é obsessivo, trabalha dezesseis horas por dia, sabe mandar e governar. Aécio é bom, mas o Serra é melhor para o Brasil.”

Destacam-se, também, os dois perfis de Dilma Rousseff, escritos por Luiz Maklouf Carvalho.  Conhecemos a história desde a vinda do pai dela ao Brasil (que falava “pon” em vez de “pão”) até a chegada dela à Casa Civil. Dilma foi educada à moda da classe média europeia: tinha piano e aulas particulares de francês.  Na juventude, destacou-se em grupos de guerrilha como altiva e dura.  Ela foi, também, uma ávida leitora. Num apartamento onde morava com o primeiro marido, a polícia encontrou livros como Revolução e Estado (Fidel Castro) e A história da Revolução Russa (Leon Trotsky). No perfil, somos apresentados ao lado mais humano dela, como quando a presidente diz: “eu não vivo sem cachorro” (ela é uma de nós!). 

Sobre José Serra – que não come alho, cebola, frituras e não digere sementes e nem bebe café - Daniela Pinheiro destrincha manias do ex-governador de São Paulo, como a de lavar as mãos, ou passar álcool nelas, após cumprimentar pessoas. Nesse perfil, sem dúvida um dos melhores, Serra é apresentado como alguém teimoso. Escreve a jornalista:

“Amigos próximos e distantes, correligionários, conhecidos, jornalistas, todos que entrevistei – exceto seus familiares – consideram Serra, de alguma forma, implicante. Já o viram implicar com comida, com a maneira de os outros se vestirem, com o vinho servido num jantar, com a redação de um cardápio [...].”

Mariana Silva, cujo perfil é o último do livro, tem a vida repassada: da infância pobre até encontros com diversos empresários. A repórter a descreve como prolixa. Simples perguntas tem resposta de cinco minutos.  E entediada com algumas questões que ouve de repórteres:

 “Em algumas entrevistas, ela dá a impressão de se entediar com algumas perguntas, que parece já ter respondido milhares de vezes: por que saiu do PT, o choque com Dilma Rousseff, se ela não se acha quixotesca, se está magoada com Lula, se as metas de redução de emissões de carbono do governo são satisfatórias, o que ela pensa do pré-sal e se a Amazônia tem saída.
“Quando é assim, ela toma folego e emenda frases de muitas, muitas, muitas palavras, com uma dicção mecânica, mas educada. Sempre menciona que o aquecimento global é uma bomba a ser desmontada nos próximos cinquenta anos.”

Ainda há espaço para o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos  (um bon vivant com mais de 200 gravatas, falecido em 2014)¸Fracenildo dos Santos Costa  (o caseiro, bode expiatório da CPI dos Bingos) e Sérgio Rosa (ex-presidente da Previ, alguém muito, muito esperto).

Ao final do livro, um posfácio magistral de Humberto Werneck coloca a cereja no bolo.

“Vultos” reúne o que há de melhor nos perfis jornalísticos. É difícil eleger qual dos textos é o melhor.  O que é fácil perceber, assim que o livro se fecha, é que, após quase cinco desde que foi publicado, a Piauí deve reunir novos perfis e fazer um novo livro.

Nós, leitores, agradecemos.  



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