30 de mar de 2015

Incidente em Antares (Érico Veríssimo) @ciadasletras


Incidente em Antares
Érico Veríssimo
Companhia de Bolso
496 páginas



Desconhecer Érico Veríssimo não é pecado. Ler Incidente em Antares e não gostar, aí, sim, é um problema.

O livro, publicado em 1971, é uma obra-prima. Divido em duas partes, há mistura de romance histórico e realismo fantástico. Em Incidente, somos apresentados à cidade de Antares, um pequeno município próximo a São Borja, no Rio Grande do Sul. Nesse local, tudo acontece. Tudo mesmo.


Homens matam os outros na rua, políticos e empresários se corrompem e mortos ressuscitam.   O que? Sim, eles ressuscitam.

Mais especificamente na segunda parte. Sete pessoas morrem durante uma greve geral na cidade, numa sexta-feira, 13 de dezembro de 1963. Os mortos são vão de pessoas das classes mais simples, como Pudim de Cachaça, um alcoólatra assassinado pela mulher, e das mais abastadas, como dona Quitéria, a matriarca da família Campolargo, morta por um enfarto.

Inexplicavelmente – aí, o realismo fantástico! – essas mortes acontecem de repente, logo após a greve geral no município. Com isso, os coveiros não querem enterrar os mortos. E, a Deus dará, eles se levantam no meio da madrugada, com os corpos em decomposição, e voltam à cidade em que viveram.

O caos se instala no pequeno município com menos de 30 mil habitantes. Os mortos visitam os locais em que habitam. Um deles, o maestro Menandro, que se suicídio após passar uma vida sozinho, deprimido por nunca ter tocado Apassionata, de Bethooven, volta à sua residência, senta-se ao piano e começa a tocar a música que o assombrou em vida.

O advogado Cícero Branco – atenção a esse camarada – encontra a sua mulher na cama com um cara mais jovem menos de 24 horas após a morte dele. Num dos diálogos mais engraçados, do livro, ele diz:

– Apresento-me. Dr. Cícero Branco. Corno póstumo. Não, minto. Eu já era enganado por minha mulher, quando vivo. Existe nesta cidade uma apreciável cadeia de cartas anônimas que me mantinha informado das atividades adulterinas dessa distinta dama, com detalhes de lugar, hora e nome do macho. E você? Acho que não o conheço... ou conheço? Pare de tremer, menino! Não lhe vou fazer nenhum mal físico ou moral. Se o meu mau cheiro o incomoda, molhe um lenço na água de colônia que está ali em cima do toucador e tape o nariz com ele.

Cícero, que decide advogar mesmo após de morto, organiza um movimento pedindo para que os mortos sejam enterrados até o meio dia de 13 de dezembro: uma sexta-feira. Caso contrário, os mortos se reunirão na praça principal, e ele vai contam os podres da cidade.

A praça público, espaço onde a democracia nasceu na Grécia Antiga (a pólis, não é mesmo, professores de história?), torna-se, mais uma vez, um espaço para a democracia. Ou para a fofoca.

Os mortos abrem a boca. Falam sobre as traições, a sujeira política, a tortura cometida por agentes públicos. Uma prova cabal, na literatura, que só os mortos podem ser honestos.  Uma crítica do autor ao Brasil que, quando vivo, não podia falar nada.

Um Brasil que, no fim das contas, com o desenrolar da história, continuará na mesma.

A simbologia e os significados

Mais do que a volta dos mortos, é interessante percebermos o significado da vida para cada um. Os mais abastados, se frustram. Dona Quitéria, por exemplo, descobre que os familiares dela não estavam tristes com sua morte, e, sim, preocupados em dividir as joias. Por outro lado, a prostituta Erotiltes reencontra uma amiga e tem uma conversa simples e honesta. Uma crítica às classes mais altas que são menos verdadeiras.

Há, também, críticas veladas à ditadura vigente naquele país. Além daquela sobre apenas os mortos poderem falar, o autor mostrou, de certa forma, que, com mais ou menos tempo, a estrutura do poder muda. Mas sempre haverá poderosos.

Na primeira parte do livro, acompanhamos a ascensão do patriarcalismo e do coronelismo. No fim da segunda parte, vemos o fim do coronelismo, -  representado, principalmente, por Tibério Vacário -  substituído por outra forma de poder.

Outra coisa que chama atenção é a dualidade. Existem dois partidos políticos fortes, duas empresas de refrigerante, dois hospitais que brigam por clientes, o livro é dividido em duas partes.
Talvez seja a forma que o autor encontrou para mostrar que o mundo é divido em dois. Se formos olhar pelo contexto histórico, ditadura e guerrilheiros, burguesia e proletariado.

No caso de Veríssimo, não é ser maniqueísta: é ser sagaz.


Uma boa leitura a todos. 

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