11 de nov de 2014

Papéis Avulsos (Machado de Assis) @ciadasletras

Papéis Avulsos (Machado de Assis)
Ed. Penguin & Companhia das Letras
Ano da publicação original: 1882.

Aviso: Antes de ler essa resenha, esqueça o trauma causado pela leitura de Machado na escola. Não, ele não é um autor chato. Não, ele não escreve de maneira incompreensível. Não, ele não escreve somente para pessoas com Q.I. elevado. Ele escreve pra você também. Leia a resenha que você vai ver.

Então veja.

Não é de se espantar que considerem Machado de Assis (1839-1908) como um dos maiores – talvez o maior – nome da literatura brasileira. Autor de “Memórias póstumas de Brás Cubas” (1881), “Quincas Borba” (1891) e “Dom Casmurro” (1899), o bruxo do Cosme Velho também publicou crônicas, poemas e contos – saindo-se muito bem nesta última categoria.

Em 1882, um ano após lançar “Memórias”, Machado reuniu 12 contos publicados na imprensa  entre 1875 e 1882 - quase todos sob pseudônimo – e lançou “Papeis Avulsos”.

No livro, a sagacidade, a inteligência e o humor podem ser percebidos sem muito esforço. O título já é uma ironia. Por mais que pareçam avulsos, os textos, em si, possuem unidade e um tipo de coerência.

Os contos

No primeiro conto, “O Alienista”, conhecemos a história do Dr. Simão Bacamarte, um médico que viveu na Europa e que voltou ao Brasil para cuidar de pessoas com problemas mentais.

A história é a seguinte: D. Bacamarte se causou com D. Evarista, “não bonita e nem simpática” mas que reunia “condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista”.

Com o tipo de humor descritor acima, vemos no conto  - que pode ser considerado como uma novelinha - , a transformação de dr. Bacamarte, de herói a monstro, de inocente a carrasco, e assim sucessivamente.  A dualidade permeia o texto e isso é fantástico. Por isso Machado é Machado.


Além disso, por meio do conto percebemos que o autor criticava as descobertas da ciência, que chegavam ao Brasil naquela época, como o Darwinismo.

No conto seguinte, “Teoria do Medalhão”, temos uma crítica à aristocracia da época, que se encaixa perfeitamente na sociedade atual. Num diálogo, pai diz ao filho para imitar aos outros e não produzir ideia nenhuma. É uma critica ao vazio das pessoas, que não se preocupam em ser, apenas em ter. Ou melhor, em parecer.

Destacam-se ainda os contos “Na arca”, uma releitura engraçadíssima sobre a Arca de Noé escrita na forma de um texto bíblico; “A sereníssima república”, uma crítica aos sistemas eleitorais, que sempre ajudam um e prejudicam outro; e “A chinela turca”, história de uma aventura vivida pelo bacharel Duarte. Além de muito engraçada, esse conto é simétrico em si mesmo: surpreendente, leve e genial.


Com exceção de d. Benedita, que me parece sem muitos motivos para existir, todos os contos do livro agradam o leitor.  Vale a leitura de cada um.

O sentimento que fica, após a leitura de Papeis, é a sensação que, naquela época, o homem era vazio. E que hoje, as coisas não mudaram muito.

Machado ainda viverá por muito tempo.





Edição Penguin-Companhia

A edição lançada em 2012 pela Penguin-Companhia merece um texto à parte. Ela é simples: capa alaranjada e sem grandes ornatos. Por outro lado, traz notas explicativas sobre o texto, além de um prefácio escrito por um especialista em Machado de Assis: John Gledson.



2 comentários:

Juliana Magalhaes disse...

Acho que a questão do trauma com Machado de Assis é culpa justamente das escolas e dos livros de literatura, da caracterização demasiada de culto, e de linguagem difícil e etc...
Só fui ler Machado de Assis com 18 anos justamente por causa disso, mas me surpreendi muito, e inclusive gostei muito
E ótima resenha ^^, já tinha ouvido falar da Teoria do Medalhão, mas ainda não li
Esse livro seria uma boa para o clube do livro :D

Victor Simião disse...

Pois é, Juliana. Nisso eu concordo com você. Infelizmente, a leitura "obrigada" de obras clássicas, como as de Machado de Assis, José de Alencar e de outros autores, "bloqueia" alguns possíveis leitores.

Cabe a nós, meros mortais que gostamos de ler, incentivar a leitura desses cânones!

Em relação à leitura dessa obra em um clube de leitura, faça isso mesmo. No último sábado, fiz isso no clube onde participo e foi ótimo!

Obrigado pelo comentário.

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