24 de nov de 2014

Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas (José Saramago) @ciadasletras



"Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas"
Ed. Companhia das Letras
Lançamento: 2014


*José Saramago morreu em junho de 2010, mas a obra dele, não. Literalmente. Em 2009, após lançar “Caim”, o português começou a escrever um livro que acaba de ser lançado. Batizado de “Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas”, a obra póstuma, publica pela Companhia das Letras no Brasil, tem três capítulos. O terceiro, inclusive, incompleto.  Entretanto, em pouco mais de 50 páginas, o estilo inconfundível do autor fica claro e o objetivo dele, também: o de desassossegar o leitor.


No livro, cujo título foi retirado da tragicomédia "Exortação da guerra”, de Gil Vicente, o Prêmio Nobel de Literatura de 1998 apresenta a história de Artur Paz Semedo, um apaixonado por armas, apesar de nunca ter dado um tiro ou ter segurado uma espingarda ou algo relativo.

Semedo é contabilista da empresa de material bélico Belona S.A. Ele sabe que, economicamente falando, a empresa onde trabalha é importante, pois as vendas de armamento e munições não param, e as guerras nunca acabam. E ele gosta disso.

A mulher dele, de nome Felícia, é uma pacifista convicta. Os dois estão separados (não oficialmente), mas ainda conversam entre si. Numa dessas conversas, Artur diz a ela que, após ler “L'Espoir” (Esperança, em tradução livre), livro do francês André Malraux que aborda a Guerra Civil da Espanha (1936-1939), descobre que, certa vez, operários sabotaram um obus em Milão. E morreram por isso.

Semedo relata à mulher que, quando leu o trecho referente à façanha dos operários, enfureceu-se. Como funcionário de uma empresa de material bélico, ele não gostou de imaginar que alguns funcionários sabotaram uma arma e, por isso, ficou feliz com ao ler sobre a morte deles.

Felícia, sutilmente, ouve e dá uma sugestão: que ele investigue a história da empresa onde trabalha para descobrir o que ela fez durante a Guerra Civil Espanhola.
Convencido pela mulher, cujo objetivo, aparentemente, era apenas conhecer a história da própria empresa, acompanhamos os primeiros passos de Artur Paz Semedo em busca do passado da Belona S.A.

E é durante esse resgate histórico que a história termina, sem ponto final ou vírgulas. Acaba-se poucas páginas depois de o contabilista descobrir que, em 1933, a empresa cogitou fabricar materiais agrícolas.

Com esse final inesperado por conta da morte do autor, ficamos livres para nos questionarmos sobre os rumos que o romance iria tomar. O que será que Felícia queria com a história da empresa? O que Artur Paz Semedo iria descobrir? Isso não sabemos e nunca vamos saber.

Mas em relação ao que já está escrito, podemos tirar algumas conclusões.
Saramago, a partir de Artur Paz Semedo, Felícia e Belona S.A., volta às alegorias iniciadas em “Ensaio sobre a cegueira” (1995), e isso é ótimo. Apesar de “Caim” e “A viagem do elefante” (2008) serem bons livros, as poucas páginas de “Alabardas...” já os superam.
Nesse livro, o autor português mostra o quão ignorante e doente está a sociedade em relação às guerras e às armas.

Nós, assim como Artur, somos (da) Paz. Mas, igual a ele, muitos de nos não se importa com notícias ou situações em que a morte, as armas e a destruição imperam e que, muitas vezes, os mais fracos são eliminados. Sem reflexão e sem a compreensão de que as armas são criadas para matar a vida e, por outro lado, dar mais vida ao capital.

Felícia, por sua vez, é a consciência que cada um de nós deveria ter. Mesmo que não fiquemos juntos o tempo todo, relacionar-se com ela é fundamental. Essa mulher/consciência, assim como Blimunda, em “Memorial do Convento” (1982), é forte. Assim como a mulher do médico, em “Ensaio sobre cegueira” (1995), é o contraponto moral à insanidade que toma conta da contemporaneidade.

Belona S.A. é o nosso mundo. Nós criamos a nossa própria destruição, muitas vezes sem nos darmos conta disso. Por isso, devemos descobrir a história dele para mudá-lo e mudarmos a nós mesmos também.

Além da história de Semedo, “Alabardas...” conta com ilustrações de Günter Grass e com três textos extras. Um do ensaísta espanhol Fernando Gómez Aguilera;  outro do escritor italiano Roberto Saviano; outro do antropólogo brasileiro Luiz Eduardo Soares.

E tem mais. Nove notas escritas por Saramago em relação à produção da obra estão presentes. Numa delas, descobrimos que o autor iria terminar o livro com a seguinte frase: “Vai à merda”.


Como se sabe, o autor não terminou a obra com essa frase. Mas isso não importa. O que importa é que Saramago, a partir da própria obra, vive. E viverá para sempre.

* Está resenha foi publicada em outubro deste ano no jornal cultural "O Duque". 



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