4 de nov de 2013

Toda Poesia (Ferreira Gullar)



Toda Poesia (12ª  edição, 2004).
Editora Record
532 Páginas
Preço sugerido: R$ 53 

Na semana passada, foi publicado, aqui no Caçadora, um texto sobre o poeta maranhense Ferreira Gullar. A obra completa do autor está sendo reeditada e relançada pela Editora José Olympio.

Hoje, o assunto em si é a poesia do cara. Ou melhor, o livro Toda Poesia, lançado em 1999. Apesar do nome, o livro não reúne completamente a obra poética do autor até aquele ano. O livro Crime na flora ou Ordem e Progresso (1986), por exemplo, não está ali. (Talvez por ser uma mistura de prosa e poesia.) 
Muito menos o primeiro livro de Gullar, Um pouco acima do chão (1949), renegado durante muitos anos pelo autor. O livro só voltou a ser reeditado nos anos dois mil.

Sobre o livro

Poemas que foram escritos soltos, como os de cordel, durante a década de 1960, foram agrupados e tornaram-se Romances de Cordel.

Ao meu ver, Gullar é o maior poeta que nós já tivemos no Brasil. Sim, respeito a opinião de todos. Mas essa é a minha.  Caso você duvide, leia a resenha e tire suas próprias conclusões.

Resenha poesia não é fácil. Resenhar este livro, mais difícil ainda. Por isso, vou falar brevemente sobre as obras que constam nele. O que eu recomendo? Que vocês, caçadores, devem ir até a uma biblioteca (como eu fiz) e ler o livro, que já adianto: é demais.

Então vamos lá.

No primeiro,  A luta corporal (1950-1953), o próprio autor diz que a intenção era desconstruir a linguagem poética. E ele o faz. Como no poema “Roczeiral”.  Os versos, de tão complexos,  quase não são compreendidos.  Aqui vai um trecho:
[...]
ENFERMO
LUÍZNEM
EÔS SÓES
LÕ CORPOE
INFENSOS
Ra
CI VERDES
NASCI DO
CÔFO

Mas também existem poemas “compreensíveis”.  Depois, há o Vil Metal (1954-1960), que segue a mesma linha do primeiro.

Depois, o maranhense parte para novos rumos. No livro Poemas concretos/neoconcretos (1957-1958), o poeta, novamente,  inova-se. Posteriormente, rompe com esse tipo de linguagem e vai para o cordel.

Os poemas que compõem Romances de cordel (1962-1967) foram escritos quando Gullar foi diretor do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE).  Época, também, em que se filiou ao Partido Comunista Brasileiro (PCB).  Por esse motivo, os poemas são engajados à esquerda e ao comunismo. O primeiro poema cordelístico,  João Boa-Morte, lembra muito a história de Levantado do Chão, de José Saramago: a história de um lavrador que sofre na mão dos latifundiários e do capital e que, somente vê o futuro quando se junta a outros da mesma classe e se organiza.
[...]
Já vão todos compreendendo,
como compreendeu João,
que o camponês vencerá
pela força da união.
Que é entrando para as Ligas
que ele derrota o patrão,
que o caminho da vitória
está na revolução.


De tão parecidas,  até me surgiu a ideia de que Saramago baseou-se nesse poema para escrever o famoso romance lançado em 1980.

Já o Dentro da noite veloz (1962-1975), o poeta utiliza, mais uma vez, a poesia contra a ditadura. Nos poemas, também de cunho político e social, o autor expõe problemas no Brasil, como no Poema Brasileiro:
[...]
No Piauí
de cada 100 crianças que nascem
78 morrem
antes
de completar
8 anos de idade
[...]

Ou a admiração com a Revolução Cubana, nos versos de Cantada:

Você é mais bonita que uma bola prateada
de papel de cigarro
Você é mais bonita que uma poça dágua
límpida
num lugar escondido
[..]
e quase tão bonita
quanto a Revolução Cubana

O próximo livro, Poema Sujo (1975), foi escrito quando Gullar estava exilado na argentina. Ele acreditava que iria morrer e, portanto, fez um poema dizendo tudo que gostaria. O resultado é SENSACIONAL. Sendo, para mim, o melhor e mais belo poema brasileiro.  Durante o texto, que dura 58 páginas, o poeta se lembra de sua cidade natal, dos locais que costumava ir, das pessoas que observava, do barulho do trem que ouvia. Lindo!
[...]
bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era...
Perdeu-se na carne fria
perdeu-se na confusão de tanta noite e tanto dia
perdeu-se na profusão das coisas acontecidas
[...]

Na vertigem do dia (1975-1980), há um poema dedicado a Oscar Niemayer e outro à Clarice Lispector.   Em Barulhos  (1980-1987), o poeta escreve sobre situações do cotidiano. E também volta a mostrar o seu lado comunista, como no poema Sessenta Anos do PCB

Por fim, Muitas vozes (1999), é outro livro fantástico do poeta.  Já com quase 70 anos, o poeta reflete sobre a vida, a morte, os filhos, a sociedade.  E também faz críticas. Num poema curto, O Morto e o Vivo,  Gullar, em poucos versos, nos mostra o que pensa sobre o hábito de muita gente:  

Inútil pedir
perdão
        dizer
que o traz
no coração

O morto não ouve





Ferreira Gullar: hoje, um senhor de 83 anos.  E para sempre: um grande poeta.  Vale a pena lê-lo.

E aí, o que acharam? 

Até a semana que vem, caçadores!





2 comentários:

Pedro Henrique disse...

Não conhecia esse poeta, mas me interessei pela obra dele.

Parabéns João.

João Victor disse...

Obrigado, Pedro. Gullar é genial.

Abraço!

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