14 de ago de 2013

Perto do Coração Selvagem (Clarice Lispector)


Ao som de Pescado Rabioso

Editora: Rocco
Numero de páginas: 202
Isbn: 9788532508102


Bom dia caros Caçadores!

Quando um amigo não tem os mesmos gostos literários que tu, e quer te presentear um livro, nada melhor que fazer uma lista para ele. E dessa lista que eu passei para minha amiga-com-gostos-literarios-diferentes, chegou a minhas mãos Perto do Coração Selvagem.

Ler a Clarice Lispector é uma aventura; um extenuante passeio por bosques recônditos e paisagens não aptas para o turista-de-hotel-de-cinco-estrelas. É algo rústico, dentro da natureza selvagem: existencialismo a veia.

Este “existencialismo a veia” é conduzido por Joana, nossa protagonista, que começa relatando sua infância. Desde pequena mostra a sua agudeza intelectual, ao perguntar a professora:

-O que é que se consegue quando se fica feliz?. Sua voz era uma seta clara e fina. A professora olhou para Joana.
-Repita a pergunta...?
-Silencio. A professora sorriu arrumando os livros.
-Pergunte de novo Joana, que eu não ouvi.
-Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? Repetiu a menina com obstinação.
-Que ideia! Acho que não sei o que você quer dizer, que ideia! Faça a mesma pergunta com outras palavras...
-Ser feliz é para conseguir o que?


O dialogo que está no começo do livro já nos augura como será a consistência dele. A continuação da trama se desenvolve com os dramas existenciais correspondentes a sua idade e crescimento, os relacionamentos com o professor, Otavio, Lidia, a voz da mulher, e seu amante sem nome.

Com luzes tênues de Nietzsche e muito mais fortes de Simone de Beauvoir, a trama se desenvolve. Joana não reconhece o conceito de bem e de mal, nem autoridades. Tem um conceito de liberdade individualista e sumamente alto. Mas vejamos por partes:

O bom: Clarice é uma mulher difícil de entender, e isso é bom!, pois representa a uma raça que veio sem código de barras a este mundo, que no se adéqua aos “10 passos para entender as mulheres” de qualquer livro de auto ajuda. A trama é crua, nos faz refletir a cada parágrafo, é tensa, densa; como uma névoa marinha de fim de mundo, perto do Cabo de Hornos.

O ruim: Há uma palavra em português que é sumamente linda: “longínquo”. Mais do que uma palavra, é um conceito. Isso o sabe muito bem a autora; mas desta vez usou e abusou extremadamente dela, roubando-lhe a beleza.

A estética:  Vejamos e convenhamos: a capa é feia; desligada de si mesma, não tem nexo nenhum. Vejo um manequim feminino sem cabeça, nu; aparentemente na areia do mar, do lado de uma pedra.  No céu, que também é mar, um peixe voando (ou nadando, não sei). Depois de ler o livro, posso, com muito esforço, fazer umas conexões; mas a priori, a arte não me diz nada, cero, nothing!

O regatável: O relato de Joana é fantástico! Introduz-se na mente e na essência da mulher, relembrando o peso existencial e abstraindo-a do sistema e  molde imposto pela sociedade: nascer, casar, dar a luz, criar os filhos, esposo e morrer. Relembra-nos que não só de finais felizes vive a mulher, que isto não é Hollywood, é a vida. Olha-a a partir de si mesma: reflexiva, solitária, autossuficiente, angustiada; enfim, viva. Um mundo em si mesma.

Tipo de caçada: 

Bom caçadores, espero que possam ler e se apaixonar pela sua valiosa compatriota Clarice.

Até o próximo livro!

Daniela Vidal.

4 comentários:

Brenda S. [adm] disse...

Gente que resenha profunda! rsrs Imagino como deve ser o livro... acho que nunca li nada da Clarice (não me matem!)... e nossa, essa capa é feia mesmo, que tenso rsrs.

Curti muito sua resenha Daniela ^^
bjs

http://www.sonhosemtinta.com.br/

Daniela Vidal Ruiz disse...

Obrigada Brenda!
O livro é realmente bom.
Um abraço!

Gata Autora disse...

Olá, como vai?
Peguei esse livro emprestado de minha prima, apenas por um desafio - ou não só por isso. Queria ler algo da Clarice e minha prima me desafiou a ler "Perto do Coração Selvagem", que ela encontrou em sua casa. Disse que tentou ler e não conseguiu por ter palavras complicadas, ao seu ver. Espero gostar tanto quanto você. A propósito, ótima resenha!
Beijinhos,
Karol.
http://heykarol.blogspot.com.br/

Daniela Vidal Ruiz disse...

Oi Karol!
Ler a Clarice claramente é algo complexo; mas ao mesmo tempo te abre um novo horizonte literario e vai te fazer refletir bastante.
Obrigada por nos visitar!
Um abraço e boa leitura!
Meu blog bilingue
http://www.ograndetapetededeus.blogspot.com/

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