19 de nov de 2012

Resenha: Corações Sujos (Fernando Morais)




Ed. Companhia das Letras
ISBN: 878-85-559-1937-0
352 Páginas


Aposto que você é daqueles que sabem que os japoneses vieram ao Brasil há mais de 100 anos, que, com muito esforço, eles conseguiram garantir uma vida melhor, e que a maioria das pastelarias que você frequenta são estabelecimentos comandados por eles.

Isso  tudo é clichê, caçador (a). A história dos nossos amigos orientais é muito mais bonita e sangrenta.  

E é esse tipo de história que eu não conhecia. Que você não conhece,  e que a escola infelizmente não ensina. E será essa a história que você irá conhecer, ao menos um pouco, nesta resenha.


Creio que você conheça a história da primeira guerra mundial. Ou, quem sabe, da segunda. Mas da guerra que os japoneses travaram no Brasil, mais precisamente no interior de São Paulo, eu acho que não.

"Corações Sujos", que teve a primeira edição lançada em 2000, veio para narrar à história da batalha travada pela colônia japonesa pós-segunda guerra mundial nas terras verde-amarelas. 

A colônia japonesa que se instalara no Brasil estava dividida. De um lado havia os “Kachigumi”, que significa “vitoristas”. Do outro, os “Makegumi”, ou “derrotistas”, apelidados também de “corações sujos”, pela seita “Shindo Renmei”, cuja qual era ligada aos “vitoristas”, e que tinha como objetivo principal, acabar com os “derrotistas”.

A obra é fantástica.  Li em pouco tempo.  Abria em todos os locais em que estava para poder ler. Acredito que, por causa disso,  perdi vários amigos, pois eles queriam puxar assunto comigo, e eu queria saber como se desenrolava a história.

Sem dúvida alguma, o livro é uma grande reportagem  muito bem feita. Coisa de quem sabe escrever. Fernando Morais, autor de “Olga”, “A ilha”, e, o mais recente “Os últimos soldados da guerra fria”, cria um best-seller, e mostra o porquê de ser considerado um dos melhores autores nacionais.

O estopim para o início da “guerra” dos japoneses foi a derrota do Japão para os Estados Unidos, em 1945. Foi a primeira derrota  do país, nos 2600 anos que a terra do sol nascente tinha até então.  
Aqui, no Brasil, viviam cerca de 200 mil imigrantes japoneses e que acabaram  se dividindo em dois grupos:  os que acreditavam na derrota do Japão (“Makegumi”), e os que não acreditavam (“Kachigumi”).

Para os “vitoristas”,  o motivo para não acreditar era simples: o Japão nunca havia perdido uma guerra, por isso não seria naquele momento que perderia;  e pelo fato da notícia ter chego ao Brasil pelo rádio, aquilo significava uma propaganda norte-americana.

Os japoneses que acreditavam na vitória do Japão começaram a ir atrás de quem duvidasse da vitória de seu país de origem. E os matavam. Mas antes, em frente à casa do futuro assassinado, deixavam uma mensagem: “Lave sua garganta, coração sujo”.

Enquanto lia isso, imaginava como era a situação. O medo tomou conta de mim. Imagine, então, de quem viveu na pele aquilo. O que eles sentiram e pensaram? Como reagiram?, me perguntei. E logo em seguida, obtive a resposta, já que o próprio livro traz essas informações.  

Com o passar do tempo, vários  japoneses se reúnem para organizar um grupo -  os “vitoristas” – que acaba sendo  batizado de “Shindo Renmei”, que se unem para matar todos aqueles que duvidassem da vitória do país.

Para dar veracidade aos fatos, alguns “Makegumi”  falsificavam fotos e alteravam revistas para mostrar a vitória do exército japonês. Ai de quem ousasse duvidar da veracidade de tais informações.

Uma das características dos “Makegumi” era a inocência. Após assassinarem quem deveria morrer, eles tinham ordens explícitas de se entregarem a polícia, pois sabiam das leis brasileiras.

Ao todo, durante a atuação da organização, 23 japoneses foram mortos, e cerca de 150 ficaram feridos entre  janeiro de 1946 a fevereiro de 1947. Não houveram mais mortes por conta da pontaria dos “vitoristas”. Por várias vezes eles erraram o alvo – quando não  matavam japoneses errados.

O Dops (Departamento de Ordem Política e Social), para conter a ação espalhada pelo estado de São Paulo, prendeu 30 mil suspeitos, condenando 381 de um a trinta anos de prisão. E o então presidente Getúlio Vargas decreta a deportação de oitenta pessoas ligadas à “Shindo Rinmei”.

Um último detalhe que me deixou fascinado foi a pesquisa realizada pelo autor para escrever a obra. Ao final do livro, ele deixa o nome das pessoas que foram entrevistadas. Entre elas, havia alguns ex-membros da “Shindo Renmei”.

Em 2001, "Corações Sujos" levou o prêmio Jabuti de Literatura na categoria Reportagem. Neste ano a obra foi adaptada para o cinema. Infelizmente, não assisti. Me contentei em ver o trailer, e ler sobre a película, que, segundo Fernando Morais, não é totalmente fiel ao livro, já que cria uma história de amor e um novo personagem, mas nem por isso deixa de ser um bom filme. Para ver o trailer, clique aqui.

Neste ano, a Companhia das Letras, que não é besta, lançou  a 3ª edição do livro com uma capa promocional (à esquerda), que remete ao filme. Ela vem acima da capa original, podendo ser retirada, caso queira.

Apesar de gostar dela, prefiro a original. 

Ah, um alerta para todos os caçadores:  não estranhe se você começar a andar por aí e começar a imaginar que todo japonês que você vê pode ter sido membro de uma organização secreta, ou que ainda é. Eu também fiquei com o mesmo pensamento durante um tempo – e às vezes ele volta (risos).



Capa: 10 - Ela realmente remete a essência do livro. De primeira, o leitor já entende, se não tudo, boa parte do que o livro quer transmitir.
Conteúdo: 10 - Muito bem escrito, bem construído e de conteúdo intrigante. Com o faro que apenas jornalistas bons possuem, Fernando Morais deixa tudo de uma forma tão clara que, às vezes, parece que estamos vendo tudo ocorrer na frente de nossos olhos.
Diagramação: 10 - Apesar de folhas brancas e leras escuras, os relatos em itálico, as fotos da época, e as fotos de abertura dos capítulos embelezam ainda mais o livro.

E por hoje é só, caçadores, caçadoras, e perdidos no blog. 
Aguardo os comentários de vocês.


6 comentários:

Juliana K disse...

Antes se você me perguntasse o que era DOPS, eu pensaria que era alguma pastilha/bala nova, rs.
Agora que li a sua resenha, gente do céu! O.O
Preciso ler!

Vanilda disse...

Super resenha, hein? Não vi o filme, mas me interessei muito pelo livro. Principalmente para quem curte os fatos históricos, deve ser um prato cheio. Deu para sentir a sua satisfação em resenhar o livro. Super indicação!

João Victor disse...

Obrigado, Vanilda!

Realmente foi uma leitura maravilhosa, e que vale muito a pena.

Quando o ler, me diga o que achou.

Beijão!

João Victor disse...

Juliana K:

HAHAHAHAHAHA.

O Dops foi um orgão EXTREMAMENTE controlador no século passado. Ele pode até ter mantido a ordem social com os japoneses, mas durante a ditadura militar fez muita coisa errada.

De bala (doce), ele não tem nada.

rsrs

Thais Vianna disse...

Amei as duas capas. E adorei a resenha. Não é um livro que eu procuraria ler, mas vendo sobre o que é a história e principalmente, como é eu fico com muita vontade de ler.

Parece ótimo.

Thais Vianna
@dathais

Sonia disse...

É maravilhoso saber que este livro foi escrito por um brasileiro e que tem um enredo envolvente e jornalistico.

soniacarmo
retalhosnomundo.blogspot.com.br

Postar um comentário

Obrigada por comentar, Caçador(a)!
Volte Sempre!

Para postar links nos comentários, utilize o espaço correto:
1- Clique em Comentar Como:
2- Selecione a opção Nome/Url
3- Em nome, coloque o seu nome ou nick das redes sociais.
4 - Em Url, coloque o link do seu blog ou página das redes sociais.

Pronto, assim você comenta e ainda coloca os seus dados, sem fazer spam.

Para dúvidas, sugestões ou solicitação de informações, encaminhe email para: c.delivros@gmail.com

Caçadora de Livros. Todos os direitos reservados.©
Design e codificação por Sofisticado Design